Em menos de quatro anos, o Porto de Itajaí passou da quase paralisação de seu terminal de contêineres a um novo ciclo de crescimento. O encerramento do contrato com a APM Terminals, no fim de 2022, foi seguido por perda de linhas, queda de 91% na movimentação em 2023 e efeitos sobre trabalhadores, empresas exportadoras e a logística industrial de Santa Catarina. A recuperação avançou com uma operação transitória, investimentos privados e a retomada da gestão federal.
Nota editorial: esta reportagem foi produzida de forma independente pelo Engenharia Podcast. O conteúdo não recebeu patrocínio, contratação institucional ou pagamento relacionado à sua produção e publicação.
Atualização: o texto foi revisado em 9 de agosto de 2026 para incorporar dados públicos divulgados depois da publicação original. A autoria e a data inicial de 18 de maio de 2026 foram preservadas.
Resposta rápida: o que aconteceu com o Porto de Itajaí?
O terminal de contêineres do Porto de Itajaí ficou mais de um ano sem operação regular depois do encerramento do contrato de arrendamento da APM Terminals. A paralisação reduziu a atividade portuária, deslocou cargas para outros portos e elevou custos para cadeias produtivas. A retomada começou com a operação transitória da JBS Terminais, em outubro de 2024, e ganhou novo impulso após a federalização da gestão, em janeiro de 2025.
Por que o Porto de Itajaí é tão importante para Santa Catarina e para o Brasil?
O Porto de Itajaí é uma peça estratégica da logística brasileira porque conecta a produção catarinense ao comércio internacional. A operação de contêineres atende empresas exportadoras e importadoras, movimenta transportadoras e armazéns e influencia empregos, serviços e arrecadação em toda a região.
Essa conexão é especialmente importante para uma economia industrial diversificada. Alimentos refrigerados, madeira, máquinas, componentes e veículos dependem de rotas regulares, armazenagem adequada e previsibilidade para cumprir contratos no Brasil e no exterior.
- Comércio internacional
- Movimentação de contêineres
- Logística industrial
- Geração de empregos
- Desenvolvimento regional
- Competitividade catarinense
Por que o Porto de Itajaí ficou parado?
A crise ganhou força após o encerramento, em dezembro de 2022, do contrato de arrendamento de 22 anos com a APM Terminals. Sem uma concessão definitiva pronta para substituí-lo, o terminal perdeu linhas, cargas e previsibilidade operacional.
Segundo a FIESC, a movimentação do Porto de Itajaí caiu 91% em 2023. O terminal passou mais de um ano sem movimentar contêineres de forma regular. Isso não significa que todo o porto tenha ficado absolutamente inativo: cargas gerais, veículos, celulose e cruzeiros mantiveram parte das atividades. O núcleo da crise foi a interrupção da operação conteinerizada, responsável por grande parte da capacidade econômica e logística do complexo.
Qual foi o impacto da crise do Porto de Itajaí para Itajaí e Santa Catarina?
O impacto foi econômico, logístico e social. A FIESC informou que grandes exportadoras de proteína animal chegaram a gastar R$ 2,3 milhões por mês com a realocação de cargas para outros portos. A entidade também estimou em aproximadamente R$ 835 milhões por ano o prejuízo provocado pela ausência da movimentação regular de contêineres em toda a cadeia logística.
Itajaí sentiu o efeito porque o porto sustenta uma rede ampla de negócios. Não são apenas navios e guindastes. O funcionamento do terminal influencia transportadoras, oficinas, restaurantes, hotéis, comércio, serviços, operadores logísticos, sindicatos, empresas exportadoras e atividades ligadas ao comércio exterior.
A paralisação também pressionou outros portos. Contêineres foram redirecionados para Navegantes, Itapoá, Imbituba e Rio Grande. Para as empresas, a mudança significou viagens mais longas, reorganização de rotas e perda de previsibilidade.
Quando uma estrutura logística desse porte perde regularidade, o impacto ultrapassa o cais. Ele chega à indústria, aos empregos, à arrecadação e à capacidade de Santa Catarina competir em mercados nacionais e internacionais.
Por que o porto é decisivo para a indústria catarinense?
A competitividade industrial não depende apenas da eficiência dentro da fábrica. Ela também é determinada pelo custo e pelo tempo necessários para levar insumos até a linha de produção e produtos acabados até os clientes. Nesse percurso, o porto funciona como parte da infraestrutura produtiva.
A JBS Terminais informou que sua estratégia em Itajaí atende nichos como carnes, madeira, maquinário e setor automotivo. São cadeias que exigem regularidade de escala, equipamentos adequados, integração com transportadoras e acesso seguro para navios de maior porte.
Para a indústria de alimentos, a previsibilidade é ainda mais sensível. Contêineres refrigerados precisam manter temperatura controlada e cumprir janelas de embarque. A perda de uma rota pode aumentar distâncias terrestres, elevar despesas e reduzir a margem de empresas que disputam mercados internacionais.
Por isso, a recuperação do Porto de Itajaí interessa a todo o setor produtivo catarinense. Quanto maior a oferta de rotas e terminais competitivos, menor a dependência de um único ponto de saída e maior a capacidade das empresas de escolher alternativas logísticas.
Como começou a retomada do Porto de Itajaí?
A retomada se apoiou em três movimentos: o retorno da operação de contêineres, a reorganização da gestão e a preparação da infraestrutura para navios e volumes maiores. A JBS Terminais iniciou as atividades em outubro de 2024. Em janeiro de 2025, a administração voltou ao Governo Federal.
Em abril de 2026, a JBS Terminais informou ter movimentado mais de 560 mil TEUs em cerca de um ano e meio, com expansão de aproximadamente 330% da capacidade operacional e investimento privado de R$ 220 milhões em tecnologia e infraestrutura.
No campo público, foi anunciado um pacote de R$ 689 milhões para dragagem, bacia de evolução, molhes, energia, scanner, contenção de margem e um novo píer para cruzeiros. As intervenções procuram aumentar a segurança da navegação e a capacidade de receber embarcações maiores.
Dados divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos em junho de 2026 mostram que o complexo encerrou 2025 com 4,76 milhões de toneladas movimentadas. Nos quatro primeiros meses de 2026, foram 1,67 milhão de toneladas, quase 40% acima do mesmo período de 2025.
Os números confirmam a recuperação, mas não encerram o desafio. A competitividade de longo prazo ainda depende de dragagem contínua, segurança jurídica, contratos estáveis, acesso aquaviário, tecnologia e confiança das companhias de navegação.
Como a reportagem foi apurada?
A apuração combinou entrevista, documentos públicos e dados divulgados por entidades ligadas à indústria e à operação portuária. Edson Gonçalves Martins entrevistou João Paulo Tavares Bastos, então superintendente do Porto de Itajaí, para compreender os aspectos técnicos, operacionais e econômicos da crise e da retomada.
As informações apresentadas pelo entrevistado foram confrontadas com publicações da FIESC, do Ministério de Portos e Aeroportos e da JBS Terminais. O objetivo foi separar a sequência administrativa dos efeitos econômicos e dos resultados operacionais, evitando tratar a retomada apenas como anúncio institucional.
Esse cruzamento mostra que a recuperação não resultou de uma medida isolada. Ela dependeu do retorno dos contêineres, de investimentos em equipamentos e infraestrutura, da reconstrução de rotas comerciais e de uma nova estrutura de gestão.
O que os dados permitem concluir?
A crise do Porto de Itajaí mostrou como uma falha de continuidade contratual pode produzir efeitos que se espalham por toda a economia. A perda da operação de contêineres atingiu trabalhadores e empresas, pressionou terminais vizinhos e aumentou a complexidade logística de cadeias industriais.
A recuperação demonstra o movimento contrário. Cargas, investimentos e receita retornaram à medida que a operação ganhou regularidade. Ainda assim, a experiência de Itajaí deixa uma advertência: infraestrutura estratégica exige planejamento que atravesse governos, contratos e ciclos econômicos.
Para Santa Catarina, manter um sistema portuário diversificado, competitivo e previsível não é apenas uma pauta de transporte. É uma condição para proteger empregos, ampliar exportações e sustentar o crescimento da indústria.
Fontes consultadas
- FIESC: Itajaí de volta à carga
- FIESC: Porto de Itajaí deve receber R$ 689 milhões em investimentos
- JBS: operação da JBS Terminais no Porto de Itajaí cresce em um ano e meio
- Ministério de Portos e Aeroportos: investimentos de R$ 689 milhões
- Ministério de Portos e Aeroportos: crescimento no primeiro quadrimestre de 2026
- Entrevista de Edson Gonçalves Martins com João Paulo Tavares Bastos, utilizada como fonte primária desta reportagem.