O episódio em 30 segundos
- A provocação: parte da consultoria ambiental tradicional pode perder espaço para empresas que integrarem IA aos processos.
- A oportunidade: a tecnologia pode acelerar pesquisa, revisão, organização e produção preliminar de estudos.
- O limite: a IA não assume responsabilidade técnica e não substitui trabalho de campo, contexto e validação profissional.
- O risco empresarial: economizar na viabilidade ambiental pode comprometer projetos e milhões de reais em potencial construtivo.
- A mudança profissional: o consultor tende a atuar menos como operador de tarefas e mais como estrategista, validador e tomador de decisão.
A consultoria ambiental vai acabar por causa da IA?
Não deve acabar, mas deverá mudar profundamente. A Inteligência Artificial já consegue acelerar pesquisa, organização, comparação e produção preliminar de documentos. O trabalho de campo, a análise do território, a validação das fontes, a interpretação técnica e a responsabilidade profissional continuam sendo humanos.
Em 2023, quando a Inteligência Artificial generativa começava a ganhar escala, o engenheiro sanitarista e ambiental Victor Valente Silvestre chegou a uma conclusão incômoda: “a consultoria ambiental vai morrer”.
A frase não significa que estudos, diagnósticos e processos ambientais deixarão de existir. A provocação aponta para uma transformação mais profunda: parte das atividades que antes exigiam horas de pesquisa, redação, organização de documentos e busca por referências já pode ser acelerada por sistemas de Inteligência Artificial.
Para Victor, a resposta não era esperar para descobrir se a tecnologia afetaria o seu mercado. Era desenvolver uma solução capaz de transformar o próprio negócio antes que outra empresa fizesse isso.
“A consultoria ambiental vai morrer.”
Victor Silvestre, no Engenharia PodcastDessa inquietação nasceu o SabIA, plataforma especializada no apoio a profissionais e consultorias ambientais. A conversa conduzida pelo Eng. Edson Martins foi além da tecnologia e colocou na mesma mesa Inteligência Artificial, responsabilidade técnica, licenciamento, mercado imobiliário, legislação, carreira e empreendedorismo.
Quem é Victor Silvestre
Victor Valente Silvestre é engenheiro sanitarista e ambiental, mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador de doutorado na área de avaliação de impactos ambientais com aplicação de Inteligência Artificial.
Também é fundador da VIVA Assessoria Ambiental, empresa especializada na viabilização ambiental de empreendimentos imobiliários, e do SabIA, plataforma de IA voltada à rotina de profissionais ambientais.
Sua trajetória passou por empresas privadas, indústria, consultoria e administração pública. Em janeiro de 2023, Victor deixou o serviço público para se dedicar integralmente ao empreendedorismo. A empresa, iniciada por ele e sua esposa, cresceu e passou a reunir uma equipe multidisciplinar.
O licenciamento ambiental protege ou trava o desenvolvimento?
A pergunta que abre o episódio resume uma das maiores tensões da engenharia ambiental brasileira. Victor considera o licenciamento um instrumento fundamental. Em sua essência, ele permite identificar impactos, definir medidas de prevenção ou mitigação e verificar o atendimento à legislação.
Identificar impactos
Compreender como uma atividade pode afetar água, solo, ar, vegetação, fauna e comunidades.
Definir controles
Planejar medidas capazes de evitar, reduzir, compensar ou monitorar os impactos identificados.
Atender às regras
Verificar leis, resoluções, condicionantes e critérios técnicos aplicáveis ao empreendimento.
Essa função está presente desde a Política Nacional do Meio Ambiente. A Lei nº 6.938, de 1981, colocou o licenciamento entre os instrumentos da política ambiental brasileira.
Em 4 de fevereiro de 2026 entrou em vigor a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, Lei nº 15.190, estabelecendo normas gerais nacionais para atividades e empreendimentos capazes de causar degradação ambiental.
A existência de uma lei geral não elimina automaticamente os conflitos de interpretação. O processo continua envolvendo diferentes níveis de governo, órgãos ambientais, normas técnicas, características locais e decisões judiciais.
Para que serve o licenciamento ambiental?
O licenciamento não deveria ser tratado como uma trava nem como autorização automática. Ele funciona como processo técnico para avaliar impactos, estabelecer condições e permitir que decisões econômicas considerem os riscos ambientais antes da execução.
Por que a viabilidade ambiental deve vir antes do projeto?
Um dos trechos mais relevantes do episódio trata da compra de terrenos e do desenvolvimento de empreendimentos imobiliários. Segundo Victor, muitos incorporadores contratam primeiro o projeto arquitetônico e deixam a análise ambiental para uma etapa posterior.
O problema é que vegetação protegida, cursos d’água, áreas de preservação permanente, características geológicas ou restrições de ocupação podem alterar completamente a área disponível para construção.
Economizar R$ 5 mil pode custar milhões?
No exemplo apresentado durante a entrevista, um empreendimento planejado com aproximadamente 800 unidades poderia perder grande parte do potencial construtivo caso uma drenagem existente no terreno fosse reconhecida como curso d’água natural.
Nesse cenário, a economia na análise inicial poderia comprometer projeto, cronograma, contratos e um Valor Geral de Vendas de dezenas de milhões de reais.
A recomendação é realizar estudo de viabilidade ambiental antes da aquisição do terreno ou antes do desenvolvimento completo do projeto.
- Verificar a área efetivamente disponível para ocupação.
- Identificar cursos d’água e possíveis faixas de proteção.
- Avaliar vegetação nativa e necessidade de inventário florestal.
- Mapear riscos de alagamento e características hidrogeológicas.
- Identificar estudos adicionais exigidos para o licenciamento.
- Conferir restrições municipais, estaduais e federais.
A análise ambiental deixa de ser uma despesa burocrática e passa a funcionar como instrumento de gestão de risco e proteção do investimento.
Como a Inteligência Artificial pode ser usada na consultoria ambiental?
Victor conta que começou a testar o ChatGPT na elaboração de cronogramas, organização de informações e apoio a atividades técnicas. Posteriormente, utilizou a tecnologia para ajudá-lo a trabalhar com programação e modelagens matemáticas em Python.
A experiência mostrou que a IA poderia atuar em três frentes principais:
Melhorar
Acelerar e organizar atividades que o profissional já domina e executa.
Revisar
Comparar documentos, apontar inconsistências e oferecer uma segunda camada de conferência.
Orientar
Conduzir o profissional em tarefas nas quais possui formação, mas ainda pouca experiência prática.
No SabIA, essa proposta foi organizada em agentes especializados. Segundo Victor, eles podem auxiliar na produção de estudos, aplicação de ferramentas, consulta a informações técnicas, organização de processos e gestão do relacionamento com clientes.
Isso aponta para uma mudança importante: a Inteligência Artificial deixa de ser apenas um gerador de textos e passa a integrar o fluxo de trabalho da consultoria.
IA não é oráculo e não assume responsabilidade técnica
A possibilidade de produzir documentos com maior velocidade traz um risco evidente: aceitar respostas geradas por IA sem verificar fontes, dados, hipóteses e legislação aplicável.
“A IA não é o oráculo.”
O alerta de Victor Silvestre para profissionais que utilizam modelos generativosModelos generativos podem produzir informações incorretas com aparência de certeza. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, o NIST, classifica esse problema como confabulação, quando um sistema apresenta conteúdo falso ou equivocado de maneira convincente.
Na engenharia, a responsabilidade continua sendo humana. A Lei nº 6.496, de 1977, determina que a Anotação de Responsabilidade Técnica identifica legalmente o responsável pela execução de obras e serviços de engenharia.
O que a IA não deve fazer sozinha
Assumir dados de campo, inventar referências, interpretar exceções sem contexto, decidir enquadramentos ou validar a própria resposta.
Onde a IA pode apoiar
Organizar informações, localizar pontos para conferência, estruturar documentos, comparar versões e acelerar análises preliminares.
A ferramenta pode apoiar pesquisas, comparar documentos, estruturar estudos e levantar hipóteses. A decisão técnica, a conferência das fontes e a responsabilidade pelo resultado permanecem com o profissional.
Restinga é sempre área de preservação permanente?
Outro bloco importante do episódio trata das restingas e das áreas de preservação permanente no litoral brasileiro. Victor explica que a vegetação de restinga cumpre funções ambientais e de engenharia, especialmente na estabilização de dunas e solos arenosos.
Ao mesmo tempo, chama atenção para as controvérsias relacionadas à definição de restinga e à aplicação da faixa de proteção de 300 metros.
O que decidiu o STJ sobre restinga
Em dezembro de 2025, a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu que devem ser reconhecidas como APP as restingas situadas na faixa de 300 metros da linha de preamar máxima ou aquelas que exercem a função de fixar dunas ou estabilizar mangues.
A aplicação ao caso concreto depende de caracterização técnica, legislação incidente e análise das condições do local.
A discussão mostra por que uma classificação ambiental não deveria ser feita apenas pela aparência do terreno ou pela presença isolada de determinada vegetação. Dependendo do caso, podem ser necessários estudos geomorfológicos, análise histórica, levantamento da vegetação e interpretação conjunta de leis, resoluções e decisões judiciais.
“Vivemos praticamente num manicômio legislativo ambiental.”
Victor SilvestreA expressão resume a percepção de profissionais que precisam lidar simultaneamente com leis federais, regras estaduais, normas municipais, resoluções, portarias, instruções normativas e entendimentos judiciais.
Desenvolvimento urbano, preservação e interesses locais
Ao falar sobre Praia Brava, em Itajaí, Victor introduz o conceito conhecido como NIMBY, sigla em inglês para “not in my backyard”, ou “não no meu quintal”. A expressão descreve situações em que uma pessoa aceita determinado tipo de desenvolvimento em termos gerais, mas se posiciona contra quando o projeto afeta diretamente a sua vizinhança.
Victor argumenta que algumas mobilizações apresentadas como exclusivamente ambientais também podem envolver interesses relacionados à valorização imobiliária, paisagem, trânsito, densidade urbana ou manutenção das características de uma região.
Essa é uma interpretação do convidado, não uma regra aplicável a toda manifestação. O debate responsável exige separar preocupações ambientais tecnicamente demonstradas, impactos urbanos legítimos e interesses individuais ou econômicos apresentados como argumentos ambientais.
A IA vai substituir consultores ambientais?
A resposta sugerida pelo episódio é que a tecnologia provavelmente não eliminará a necessidade de consultoria ambiental, mas poderá reduzir o espaço de profissionais que trabalham apenas com tarefas repetitivas e não desenvolvem capacidade analítica.
Entre as atividades mais expostas à automação estão:
- Pesquisa inicial e organização de referências.
- Estruturação preliminar de relatórios.
- Comparação de documentos e versões.
- Geração de cronogramas e listas de verificação.
- Consolidação de dados e histórico de processos.
- Preparação de respostas para posterior validação.
Isso não elimina a necessidade de trabalho de campo, análise técnica, conhecimento do território, interlocução com órgãos ambientais e responsabilidade profissional.
O consultor passa a atuar menos como operador de tarefas e mais como responsável por contexto, validação, estratégia e tomada de decisão.
Carreira, remuneração e capacidade de gerar resultado
A entrevista também aborda as diferenças de remuneração entre profissionais da área ambiental. Victor evita estabelecer um salário único porque os valores variam conforme região, experiência, especialidade, modelo de contratação e capacidade de gerar retorno.
Profissionais que conseguem demonstrar o valor econômico de suas decisões ampliam a capacidade de negociação. Esse valor pode aparecer ao evitar a compra de uma área inviável, antecipar uma exigência, proteger o potencial construtivo, reduzir retrabalho ou organizar informações para decisões mais seguras.
A capacidade técnica continua essencial, mas passa a dividir espaço com comunicação, gestão, atendimento, visão de negócio e domínio de ferramentas digitais.
Do Programa Nascer ao investimento no SabIA
O SabIA passou pelo Programa Nascer, iniciativa de pré-incubação de ideias inovadoras em Santa Catarina. Victor conta que entrou no programa com um objetivo definido: “eu entrei para ganhar”.
Ele relata ter repetido o pitch aproximadamente 50 vezes, analisando duração, apresentação, argumentos e possíveis dúvidas. A preparação também ajudou a melhorar o produto, porque responder sobre problema, público, mercado e aplicação dos recursos exigiu revisar a própria solução.
Em resultado publicado pela Fapesc para o Edital nº 03/2026, o projeto Sabiá Inteligência Ambiental aparece aprovado em mérito, em caráter preliminar, com valor de R$ 150 mil para investimento na plataforma.
O futuro da engenharia ambiental será aumentado pela tecnologia
A consultoria ambiental não deve desaparecer. Mas a maneira tradicional de executar parte do trabalho já começou a mudar.
Empresas capazes de organizar conhecimento, automatizar tarefas e manter validação técnica poderão entregar estudos com mais velocidade e consistência. Profissionais que ignorarem essas ferramentas poderão perder competitividade.
Ao mesmo tempo, usar IA sem critério pode ampliar riscos, produzir interpretações equivocadas e criar uma falsa sensação de segurança.
O futuro não pertence ao profissional que apenas utiliza uma ferramenta. Pertence a quem consegue combinar conhecimento técnico, legislação, dados, visão de negócio e responsabilidade.
A Inteligência Artificial não retira a importância do engenheiro. Ela aumenta o impacto de suas decisões, para o bem ou para o mal.
Assista à conversa completa
Victor Silvestre e Edson Martins aprofundam IA, licenciamento, restinga, viabilidade de empreendimentos, carreira e empreendedorismo na engenharia ambiental.
Assistir no YouTubePerguntas frequentes sobre IA e consultoria ambiental
A Inteligência Artificial vai substituir o consultor ambiental?
A IA tende a automatizar pesquisa, organização, revisão e produção preliminar de documentos. Validação técnica, trabalho de campo, interpretação contextual e responsabilidade continuam sendo humanas.
Como a Inteligência Artificial pode ser usada na consultoria ambiental?
A IA pode apoiar pesquisa, organização de dados, comparação de documentos, revisão, estruturação preliminar de relatórios, gestão de processos e preparação de análises para validação profissional.
Quem responde por um estudo produzido com apoio de IA?
A ferramenta não assume responsabilidade técnica. O profissional que valida e assina o serviço continua responsável pelo trabalho e por suas consequências.
Por que fazer a viabilidade ambiental antes de comprar um terreno?
Porque cursos d’água, vegetação protegida, APPs, riscos de alagamento e outras restrições podem reduzir a área ocupável e alterar completamente o potencial econômico do empreendimento.
Restinga é sempre área de preservação permanente?
A classificação depende dos critérios legais e das características técnicas do local. O STJ reconheceu como APP as restingas na faixa de 300 metros da linha de preamar máxima ou aquelas que fixam dunas ou estabilizam mangues.
O que é o SabIA?
É uma plataforma especializada em Inteligência Artificial para apoiar profissionais e consultorias ambientais em estudos, pesquisas, revisão, organização de processos e gestão do conhecimento.
Fontes e referências
- Lei nº 6.938/1981, Política Nacional do Meio Ambiente
- Lei nº 15.190/2025, Lei Geral do Licenciamento Ambiental
- Lei nº 6.496/1977, Anotação de Responsabilidade Técnica
- STJ, limites para reconhecimento de restingas como APP
- NIST, perfil de gerenciamento de riscos para IA generativa
- Fapesc, resultado preliminar de mérito do Edital nº 03/2026
- Entrevista completa com Victor Silvestre no Engenharia Podcast