Ouviu “não” do maior dos EUA e virou sócio dele: a trajetória da EVEHX na engenharia
Em entrevista ao Engenharia Podcast, Ernani, CEO da EVEHX, conta como uma empresa brasileira de protensão avançou para o mercado internacional, abriu operações nos Estados Unidos e passou a combinar engenharia, industrialização, robótica, dados e inteligência artificial.
Assista ao episódio completo com Ernani, CEO da EVEHX, e o Eng. Karlo.
O que você precisa saber
- Ernani se apresenta no episódio como CEO da EVEHX, empresa de protensão com atuação no Brasil e no exterior.
- A internacionalização ganhou força a partir de 2014, com licenciamento e entrada em diferentes mercados.
- Em 2018, uma tentativa de vender produtos a uma grande empresa americana terminou em uma proposta para criar uma operação conjunta nos Estados Unidos.
- A empresa também investe em automação industrial, medição digital, robótica e inteligência artificial aplicada à protensão.
Um telefonema poderia ter encerrado uma negociação. Em vez disso, acabou abrindo uma nova fase na trajetória da EVEHX. Durante participação no Engenharia Podcast, Ernani contou que apresentou produtos desenvolvidos pela empresa a um dos principais nomes da indústria de protensão dos Estados Unidos. A resposta inicial foi negativa.
Duas semanas depois, porém, veio a surpresa. O executivo americano não queria comercializar os produtos naquele formato, mas estava se aposentando e enxergou outra possibilidade: criar uma operação nos Estados Unidos em conjunto com o empresário brasileiro.
A história resume uma conversa que vai muito além da construção civil. O episódio passa por engenharia estrutural, empreendedorismo, vendas, internacionalização, produtividade, automação, robótica, inteligência artificial e formação profissional.
Da engenharia civil para o mundo da protensão
Ernani conta no episódio que se formou em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná e que um dos momentos decisivos de sua carreira aconteceu quando surgiu a oportunidade de participar de um curso especializado nos Estados Unidos.
Naquele momento, a viagem estava longe de ser uma decisão simples. Ele ainda estava no início da carreira e não possuía sequer toda a estrutura necessária para embarcar. Mesmo assim, decidiu buscar a oportunidade.
Nos Estados Unidos, teve contato mais profundo com a protensão não aderente. Ao retornar ao Brasil, encontrou uma empresa se preparando para executar uma de suas primeiras obras utilizando a tecnologia.
Foi o início de uma jornada que posteriormente se transformaria em negócio, indústria, desenvolvimento de produtos e expansão internacional.
O que é protensão e por que ela muda a estrutura de um edifício?
De forma simplificada, a protensão utiliza cabos de aço, chamados de cordoalhas, dentro da estrutura de concreto. Esses cabos são tensionados para introduzir esforços que ajudam o concreto a trabalhar em uma condição estrutural mais favorável.
Uma das consequências pode ser a criação de estruturas mais esbeltas e a possibilidade de vencer vãos maiores.
Em determinados projetos, isso permite reduzir interferências de vigas e pilares e criar lajes mais livres para a passagem de instalações hidráulicas, elétricas, de incêndio e outros sistemas prediais.
A discussão do episódio mostra que a comparação entre concreto armado convencional e concreto protendido não deve ser feita apenas pelo preço de um material. Projeto, estrutura, escoramento, mão de obra, prazo, fundações e produtividade precisam entrar na análise.
O “não” que mudou a história da EVEHX nos Estados Unidos
Em 2018, Ernani decidiu procurar o então presidente de uma das maiores empresas de protensão do mercado americano. O objetivo inicial era apresentar produtos exclusivos desenvolvidos pela EVEHX e tentar comercializá-los nos Estados Unidos.
Os produtos foram enviados para avaliação. Duas semanas depois, o telefone tocou.
“Não nos interessam os seus produtos.”
Uma resposta como essa poderia ter encerrado a negociação.
Mas havia uma segunda parte na conversa.
Segundo Ernani, o executivo explicou que estava se aposentando e propôs a criação de uma empresa nos Estados Unidos junto com ele.
A negativa comercial acabou se transformando em uma oportunidade de internacionalização muito maior do que aquela originalmente imaginada.
De fornecedor brasileiro a fabricante nos Estados Unidos
Ernani relata que passou aproximadamente seis meses envolvido diretamente na abertura da empresa e no desenvolvimento do mercado americano.
A EVEHX passou a operar com fábrica em Riverside, na Califórnia, outra unidade em Alvarado, no Texas, além de um centro de distribuição na Flórida, segundo as informações apresentadas durante a entrevista.
A expansão internacional, no entanto, havia começado antes.
A partir de 2014, a empresa passou a desenvolver modelos de licenciamento e produtos próprios para diferentes mercados. Durante o episódio são citados países como Panamá, Bolívia, Argentina, Paraguai, Egito e Austrália.
Um dos pontos mais interessantes da trajetória é que a expansão não nasceu de um grande plano pronto. Uma negociação que não avançou no Peru ajudou a empresa a perceber que existia demanda internacional pela tecnologia. A partir dali, processos foram revistos e novos produtos passaram a ser desenvolvidos.
Robótica começa a entrar no controle de qualidade da indústria
A internacionalização é apenas uma parte da transformação apresentada no episódio.
Ernani conta que a empresa está robotizando uma etapa do controle de qualidade dos componentes utilizados nos sistemas de protensão.
O processo utiliza câmeras e automação para analisar peças que anteriormente dependiam de verificação visual dos profissionais da fábrica.
A proposta é identificar possíveis desvios com maior padronização e integrar ainda mais tecnologia ao processo produtivo.
É um exemplo de como conceitos normalmente associados à indústria avançada, como visão computacional, robótica e automação, começam a ganhar espaço também na cadeia da construção civil.
Do registro manual para dados praticamente em tempo real
Outra frente discutida durante o podcast está relacionada à digitalização das medições realizadas durante a protensão.
Em processos tradicionais, determinadas informações de alongamento dos cabos podem depender de marcações, medições e registros manuais antes de chegarem ao engenheiro ou calculista.
A tecnologia apresentada por Ernani busca automatizar parte desse fluxo.
Os dados podem ser coletados digitalmente e disponibilizados em uma plataforma, reduzindo etapas manuais e acelerando o acesso às informações durante a execução.
A solução evoluiu também para apresentar gráficos do comportamento do cabo ao longo do tensionamento.
A mudança é relevante porque o engenheiro deixa de receber apenas um número final e passa a ter mais informações sobre o comportamento ocorrido durante o processo. Quanto maior a qualidade dos dados, maior pode ser a capacidade de análise técnica.
Uma conexão com a Universidade Nacional de Seul
Durante um congresso nos Estados Unidos, Ernani conheceu um professor ligado à Universidade Nacional de Seul que trabalhava com tecnologia para medição automática de alongamentos.
A aproximação evoluiu para uma relação de desenvolvimento tecnológico.
Segundo Ernani, a EVEHX passou a trabalhar na evolução da solução, no desenvolvimento de plataforma própria e na criação de patentes em conjunto com a universidade.
Ele também relata que a empresa obteve direitos de distribuição internacional da tecnologia apresentada durante aquela conexão.
A inteligência artificial também chegou à protensão
A próxima etapa apresentada por Ernani durante a conversa é a utilização de inteligência artificial para apoiar a interpretação dos dados produzidos durante o processo de protensão.
A ferramenta recebeu o nome de Vera.
Segundo o CEO, o sistema deve analisar comportamentos e alongamentos e apresentar informações ao engenheiro calculista.
Existe, porém, uma diferença fundamental entre apoio à decisão e decisão técnica.
O veredito final continua sendo do engenheiro.
Esse ponto é especialmente relevante em um momento no qual inteligência artificial e automação passam a entrar em atividades cada vez mais técnicas.
A tecnologia pode acelerar coleta, organização e interpretação de informações. A responsabilidade técnica e a avaliação profissional continuam pertencendo aos especialistas envolvidos no projeto.
Protensão pode reduzir prazo e mão de obra?
Durante a entrevista, Ernani e Karlo explicam que uma das vantagens potenciais do concreto protendido está na produtividade da obra.
Após o concreto atingir a resistência especificada no projeto, os cabos podem ser tensionados e determinadas etapas de escoramento podem avançar mais rapidamente.
Estruturas mais limpas, com menor interferência de vigas e determinados elementos, também podem facilitar o trabalho das demais equipes no canteiro.
Ernani cita casos específicos em que a solução permitiu executar determinadas atividades com aproximadamente metade da equipe utilizada em alternativas tradicionais.
Ele próprio faz, porém, uma ressalva importante durante a conversa: cada obra é diferente e precisa ser avaliada individualmente.
Obras que ajudaram a construir a trajetória
Alguns projetos aparecem no episódio como marcos importantes na evolução profissional e empresarial da companhia.
Shopping Estação, em Curitiba
Ernani lembra do projeto como uma obra de alta intensidade, com atividades acontecendo praticamente durante 24 horas e acompanhamento muito próximo da execução.
Hard Rock Cafe nos Estados Unidos
A participação em uma estrutura associada ao Hard Rock Cafe é lembrada como um marco pela exposição internacional e pela quantidade de fornecedores interessados em participar do projeto.
Grandes edifícios e estruturas protendidas
A trajetória também inclui edifícios de grande porte no Brasil e aplicações nos Estados Unidos, reforçando o movimento de internacionalização da engenharia desenvolvida pela empresa.
A parte do prédio que ninguém pode simplesmente substituir
Um dos pontos mais fortes da conversa surge quando o debate deixa os equipamentos e entra na responsabilidade da engenharia estrutural.
Em um apartamento, muitos elementos podem ser substituídos ao longo dos anos. O piso pode mudar. A pintura pode ser refeita. Acabamentos podem ser modernizados.
A estrutura não funciona dessa forma.
Ela está por trás de praticamente tudo aquilo que o usuário vê e utiliza dentro de uma construção.
Por isso, Ernani e Karlo defendem uma maior valorização dos projetistas, calculistas, engenheiros e empresas responsáveis pela concepção e execução estrutural.
O engenheiro não pode ser apenas um apertador de botão
A evolução dos softwares de engenharia também entra na discussão.
Para Karlo, ferramentas computacionais aceleraram cálculos e análises que anteriormente exigiam muito trabalho manual. Isso, entretanto, não elimina a necessidade de conhecer profundamente os fundamentos da engenharia.
O profissional precisa ser capaz de interpretar o resultado apresentado pelo software e perceber quando alguma resposta não faz sentido do ponto de vista estrutural.
Tecnologia pode acelerar o cálculo. Conhecimento continua sendo necessário para saber se a resposta está correta.
Engenharia também é vendas, gestão e visão de negócio
Outro ponto importante da trajetória de Ernani está fora dos cálculos estruturais.
Ele conta que precisou desenvolver habilidades comerciais ao longo da carreira e que suas primeiras experiências vendendo serviços estavam longe de serem naturais.
A evolução veio por meio de tentativa, erro, observação e treinamento.
Para ele, engenheiros possuem uma formação naturalmente muito técnica, mas precisam desenvolver também competências de vendas, administração e liderança para crescer profissionalmente ou construir empresas.
Essa discussão se conecta diretamente com uma transformação maior no mercado da engenharia.
O profissional não pode observar apenas a tarefa técnica que está executando. Ele precisa entender como aquela decisão afeta prazo, segurança, produtividade, custo, reputação e resultado financeiro da organização.
O caso da EVEHX mostra como o papel do engenheiro está mudando
Engenheiro Edson Gonçalves MartinsEngenheiro de Produção e CEO do Engenharia Podcast
O que mais chama a minha atenção nessa história não é apenas a expansão para os Estados Unidos. É a quantidade de competências diferentes que precisaram existir para isso acontecer.
Existe engenharia estrutural, mas também existe desenvolvimento de produto, vendas, internacionalização, negociação, automação, dados, inteligência artificial e capacidade de construir relações com pessoas de diferentes países.
Isso mostra uma transformação que venho discutindo há bastante tempo. A formação técnica continua sendo a base, mas ela já não é suficiente para quem quer assumir posições de liderança ou construir negócios dentro da engenharia.
A nova engenharia não é menos técnica. Ela exige técnica somada a visão de negócio, tecnologia, comunicação e capacidade de decisão.
O engenheiro que entende apenas o cálculo conhece uma parte do problema. Quando ele entende também o impacto financeiro, operacional e estratégico da decisão técnica, passa a enxergar o negócio inteiro.
A história contada neste episódio mostra exatamente isso. Uma negativa comercial, interpretada apenas como rejeição, poderia ter encerrado uma conversa. Enxergada dentro de um contexto maior, acabou abrindo uma nova oportunidade.
Como será a construção civil nos próximos anos?
Na parte final do episódio, a conversa avança para o futuro da engenharia.
A visão apresentada pelos convidados aponta para uma construção civil cada vez mais industrializada, automatizada e orientada por dados.
Atividades que puderem ser realizadas em ambientes industriais tendem a ganhar espaço antes de chegar ao canteiro. Sistemas pré-fabricados, automação, inteligência artificial e tecnologias de monitoramento devem participar cada vez mais desse processo.
Isso não significa uma engenharia com menos importância.
Significa uma engenharia na qual o profissional passa a dedicar menos tempo a determinadas atividades repetitivas e mais tempo à análise, concepção, controle, integração e tomada de decisão.
Assista à conversa completa
A história da expansão da EVEHX é apenas uma parte do episódio. A conversa também passa por protensão, projetos estruturais, produtividade, carreira, empreendedorismo, robótica, inteligência artificial e o futuro da construção civil.
Assista ao episódio completo no canal do Engenharia Podcast.
Assistir no YouTubeDe um “não” a uma operação internacional
Histórias empresariais normalmente são contadas a partir do resultado.
Vemos a fábrica, a tecnologia, os clientes, os projetos e a expansão internacional.
O que nem sempre aparece são as viagens sem garantia de retorno, os produtos recusados, as negociações que não avançaram, os investimentos, as tentativas e as decisões tomadas antes de qualquer resultado existir.
A trajetória apresentada por Ernani no Engenharia Podcast ajuda a mostrar esse outro lado.
O mesmo telefonema que começou com um “não” acabou abrindo uma conversa que contribuiu para levar uma empresa brasileira de engenharia ao mercado americano.
E talvez essa seja uma das principais mensagens do episódio: engenharia também é a capacidade de transformar problemas, limitações e rejeições em novas soluções.
A nova engenharia já começou.
Fontes e referências
1. Engenharia Podcast. Entrevista com Ernani, CEO da EVEHX, e Eng. Karlo sobre protensão, construção civil, internacionalização, tecnologia e carreira. Assistir ao episódio completo.
2. Entrevista e transcrição do episódio. As informações relacionadas à trajetória empresarial, unidades internacionais, projetos, tecnologias, parcerias e planos futuros reproduzem declarações apresentadas pelos convidados durante a gravação.
Esta matéria possui caráter editorial e informativo. Declarações sobre a EVEHX, seus projetos, operações, tecnologias, presença internacional e resultados foram apresentadas pelos convidados durante a entrevista e estão contextualizadas como informações fornecidas no episódio.